A Linha de Wallace, Uma Barreira Invisível da Biodiversidade


A Linha de Wallace é um conceito fascinante na biogeografia que se refere a uma fronteira faunística imaginária que separa as ecozonas da Ásia e da Australásia. Ela passa por entre as ilhas da Indonésia, especificamente entre Bornéu e Sulawesi, e entre Bali e Lombok.
Esta linha foi proposta por Alfred Russel Wallace, um naturalista britânico que, independentemente de Charles Darwin, também desenvolveu a teoria da evolução por seleção natural. Durante as suas extensas viagens e pesquisas no Arquipélago Malaio no século XIX, Wallace notou uma diferença drástica na fauna dos dois lados desta linha.
O que torna a Linha de Wallace tão especial?

  • Diferenças de espécies: A principal característica da Linha de Wallace é a notável diferença nas espécies animais encontradas de cada lado. A oeste da linha, a fauna é predominantemente asiática, com animais como tigres, rinocerontes, elefantes e ursos. A leste da linha, a fauna é mais australiana, com marsupiais como cangurus arbóreos, e aves como as cacatuas e aves-do-paraíso.
  • Geologia e Placas Tectónicas: A razão para esta divisão biológica reside na geologia e na história das placas tectónicas. A Linha de Wallace corresponde, em grande parte, à borda da placa tectónica da Sonda, que faz parte da placa Euroasiática. As ilhas a oeste da linha estavam conectadas à massa de terra asiática durante períodos de baixo nível do mar na era glacial, permitindo a migração de espécies asiáticas. As ilhas a leste nunca tiveram essa conexão, e suas espécies evoluíram isoladamente ou se dispersaram da Austrália.
  • Barreira Aquática Profunda: Mesmo durante os períodos glaciais, quando os níveis do mar eram muito mais baixos, a área da Linha de Wallace permaneceu como um estreito de águas profundas. Isso atuou como uma barreira natural eficaz, impedindo que muitas espécies terrestres atravessassem de um lado para o outro.
  • Impacto na Biogeografia: A descoberta de Wallace revolucionou o campo da biogeografia e ajudou a fornecer evidências cruciais para a teoria da evolução. Ela demonstra como a geografia e a história geológica de uma região podem moldar a distribuição e a diversidade da vida.
    Em resumo, a Linha de Wallace é um testemunho notável de como processos geológicos de longa data podem ter um impacto profundo e duradouro na distribuição da vida na Terra, criando fronteiras invisíveis que definem diferentes reinos biológicos.

Vamos explorar algumas das espécies emblemáticas de cada lado:
Espécies a Oeste da Linha de Wallace (Fauna Asiática)
Esta região, que inclui a Península Malaia, Sumatra, Bornéu (parte ocidental), Java e Bali, é caracterizada por uma fauna que partilha muitas semelhanças com a do continente asiático.

  • Grandes Mamíferos:
  • Tigres: Embora hoje estejam criticamente ameaçados e restritos a algumas ilhas (Sumatra) e ao continente, a sua presença histórica marca a conexão com a Ásia.
  • Orangotangos: Encontrados apenas nas florestas de Bornéu e Sumatra, são primatas icónicos desta região.
  • Elefantes Asiáticos: Presentes em Sumatra e Bornéu, são outro exemplo de megafauna asiática.
  • Rinocerontes: Espécies como o rinoceronte de Sumatra e o rinoceronte de Java, embora extremamente raros, são remanescentes da fauna asiática.
  • Ursos-malaios (Sun Bears): Os menores ursos do mundo, encontrados nas florestas do sudeste asiático, incluindo as ilhas a oeste da linha.
  • Outros Animais:
  • Gibões: Pequenos primatas arbóreos, comuns nesta região.
  • Tapir-malaio: Um mamífero herbívoro distinto com uma coloração preta e branca.
  • Aves: Muitas aves coloridas, como os calaus (bico-de-corno), que não são encontrados a leste da linha.
    Espécies a Leste da Linha de Wallace (Fauna Australásica)
    Esta região, que inclui Sulawesi, Lombok, Flores, Timor e as ilhas a leste até a Nova Guiné e Austrália, apresenta uma fauna com fortes ligações à Austrália.
  • Marsupiais:
  • Cangurus-arbóreos: Embora não sejam tão conhecidos como os cangurus da Austrália, estes marsupiais adaptados à vida nas árvores são encontrados em ilhas como a Nova Guiné e algumas ilhas a leste da Linha de Wallace.
  • Cuscuzes: Um grupo diversificado de marsupiais arbóreos, semelhantes a macacos, encontrados em Sulawesi, Nova Guiné e outras ilhas.
  • Aves:
  • Cacatuas e Periquitos: Estas aves barulhentas e coloridas são abundantes nesta região, mas ausentes a oeste da linha.
  • Aves-do-paraíso: Conhecidas pelas suas plumagens espetaculares e rituais de acasalamento complexos, são encontradas principalmente na Nova Guiné e ilhas vizinhas.
  • Casuares: Grandes aves não voadoras, semelhantes a avestruzes, encontradas na Nova Guiné e nordeste da Austrália.
  • Répteis e Outros:
  • Dragão-de-Komodo: O maior lagarto vivo do mundo, endémico de algumas ilhas a leste da linha, como Komodo e Flores.
  • Vários tipos de aves-do-paraíso e aves com características mais primitivas: Estas são típicas da fauna australiana.
    A ausência de grandes mamíferos placentários (como tigres e elefantes) a leste da linha, e a presença de marsupiais e aves australianas, é a evidência mais clara da barreira que a Linha de Wallace representa. É como se a natureza tivesse desenhado uma linha invisível, onde a evolução seguiu caminhos distintos de cada lado.
    É um exemplo notável de como a geografia e a história geológica moldam a biodiversidade do nosso planeta!

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